Correr feio
não quer dizer necessariamente errado nem pouco eficiente. Mas ao se corrigir
algumas posturas que prejudicam a eficiência na corrida, os ganhos aparecem
naturalmente.
Observando
os grandes atletas, campeões em suas respectivas modalidades, percebemos que
seus movimentos corporais se realizam de um modo suave, preciso e determinado.
Por mais que a fadiga os alcance, ainda assim parecem dominar o ritmo do seu
corpo, a postura adequada para o desfecho de sua ação motora, seja ela um chute
certeiro em direção ao gol, o arremesso da linha dos três pontos no basquete ou
a cortada decisiva em um jogo de voleibol.
Os
corredores de fundo, como em qualquer outra modalidade esportiva, também
apresentam movimentos corporais suaves, precisos e determinados.
Cabeça, tronco, braços, quadril, pés - todos alinhados, trabalhando em
conjunto, que nos dá a sensação de estarem em perfeita harmonia com a natureza.
A leveza e precisão dos seus gestos se impõem ante a dor, a fadiga, o
adversário mais difícil, o percurso mais desafiador ou o clima menos favorável.
Mas esta
decantada perfeição do conjunto gestual dos grandes campeões é resultado da
longa aprendizagem que se realiza durante o processo do treinamento esportivo
ou se trata
de algum estilo pessoal, ou seja, um jeito próprio de fazer, que confere a quem
faz uma distinção capaz de lhe valer as honras da vitória?
Há
milhares de anos, nossos antepassados, no impulso da sobrevivência, descobriram
modos mais fáceis para executar as tarefas do cotidiano. A roda e a alavanca
são exemplos disso. A esse conjunto inacabável dos modos de fazer do cotidiano
chamamos técnica, isto é, o conhecimento prático destinado a solucionar as
questões que envolvem o trabalho e a própria sobrevivência do ser humano no
mundo natural.
TÉCNICA É
FUNDAMENTAL. Nos
esportes, a técnica é um elemento considerado fundamental para o
desenvolvimento e aperfeiçoamento do atleta. Juntamente com o preparo físico,
tático e psicológico, a técnica é um dos fatores determinantes do sucesso
esportivo, em qualquer modalidade. A técnica esportiva, portanto, traduz o
jeito de fazer do atleta, é o movimento considerado melhor, mais eficiente,
mais seguro e harmonioso. Ela representa, enfim, a leveza e a precisão do
movimento humano, a perfeição de um gesto corporal específico.
ESTILO DE
CADA UM. Dessa
forma, existe algo que escapa à objetivação da técnica, que foge ao
enquadramento cultural que a técnica nos impõe, que supera o controle do padrão
de qualidade proporcionado pela técnica. Este algo é o estilo, ou seja, aquilo
que se faz de um jeito todo próprio, característico de alguém. O estilo,
portanto, é pessoal, único, diferente, pode ou não chamar a atenção, pode ser
melhor, pior ou nenhum deles. Ao contrário da técnica, que procura moldar,
formar, transformar tudo em um, uma coisa idêntica, uma produção em série.
Todos fazendo tudo do mesmo jeito - eis a técnica! Um que faz o mesmo que
todos, mas de um jeito diferente - eis o estilo!
Se a
técnica não reina absoluta, tampouco os estilos pessoais dominam o império do
esporte. Nem tanto ao mar, nem tanto a terra, já dizia o poeta. O grande
corredor é aquele que consegue, sabiamente, ajustar a técnica ao seu estilo. A
técnica não é tudo, mas o estilo pode ser prejudicial. Há indivíduos cujo
estilo é tão conflitante com o padrão técnico que se torna algo quase impossível
ou improvável para a promoção de uma mudança qualitativa. Não há treino que dê
jeito, não há exercício capaz de conciliar técnica e estilo. Mas isso não
significa que eles não devem correr. Sim, devem e podem correr, ao seu jeito,
no seu ritmo, com os movimentos que lhes são particulares. E não importa se vão
vencer ou bater recordes: importa que corram, que participem como todos os
demais, sem exceção.
A BOA
FORMA TÉCNICA. É
observando os grandes campeões, portanto, que podemos perceber alguns elementos
que vamos denominar como "padrão técnico comum", ou seja, aqueles
sinais exteriores que nos possam indicar quais os "defeitos básicos"
podem ser passíveis de correção e, deste modo, submetidos ao aprendizado
técnico. Assim, de um modo geral, os corredores apresentam uma técnica de
corrida que, apesar da diferença de estilos, é comum a todos.
Os
elementos que fazem parte do "padrão técnico comum" dos corredores de
fundo integram o gesto específico característico da corrida de longa distância.
Partindo da observação de um corredor em ação, distinguimos os seguintes pontos
críticos do gestual técnico da corrida:
1) ombros e pescoço: devem estar
relaxados, sem sinal algum de tensão;
2) braços e mãos: cotovelos
semi-flexionados, braços e mãos relaxadas; os braços não devem cruzar à frente
do tronco;
3) tronco e quadril: não devem
apresentar oscilações excessivas;
4) pés: sempre apontados para
frente, na direção da corrida.
A análise
dos pontos críticos nos mostra que:
a) tensões musculares
desnecessárias (como pescoço, ombros, braços e maxilar rígidos, mãos cerradas);
b) oscilações excessivas (que
denota um desequilíbrio corporal - o corredor faz o movimento para fora do seu
centro de gravidade; isto pode ser observado facilmente, ao correr sobre uma
linha reta, onde os pés não devem cruzar e nem se afastar para fora da linha);
c) extremidades apontadas para
outras direções (como mãos e braços cruzando à frente do tronco e os pés na
posição "dez para as duas") - podem ser prejudiciais ao melhor
rendimento possível.
Tais
detalhes podem não corresponder ao estilo pessoal, porém serem indicativos de
uma má postura atlética decorrente de músculos enfraquecidos (principalmente
glúteos, os posteriores da coxa, dorsais e abdominais). Um reforço muscular
pode ser suficiente para corrigir esses desvios relativos ao "padrão
técnico comum" e deixar o corredor em boa forma técnica.
