A corrida faz bem para a cabeça e para o corpo. Mas tem gente que
perde a medida e se torna refém desse prazer.
Robert Kraft estava irritado e ouviu de um amigo o conselho: "Vá dar uma corridinha que você vai se sentir melhor". Robert saiu de casa, correu 13 km sem parar e a sensação boa que invadiu seu corpo fez com que ele quisesse repetir a dose. Era dia 1º de janeiro de 1975 e, desde então, o compositor americano corre a mesma distância, no mesmo percurso, todos os dias. Por causa desse fanatismo diário, ele se transformou em protagonista de um documentário sobre corredores obsessivos. Tanta dedicação extrapolou o limite do que é considerado saudável, tanto física como emocionalmente. Robert só queria sentir-se bem — e acabou viciado.
Nesse mesmo time estão tantos outros esportistas que dedicam boa parte da vida à corrida e dependem dela para se sentir bem. Ainda não há pesquisas que quantifiquem esse grupo, e uma das justificativas para isso é simples: nenhum corredor obcecado pelo esporte se qualifica dessa maneira. "O fato de estarem praticando algo saudável serve como desculpa para o excesso de dedicação. Normalmente são apaixonados pela corrida, mas, em vez de dominá-la, são dominados por ela. É uma escravidão silenciosa", diz Pérsio Ribeiro de Deus, corredor, médico psiquiatra da Unifesp e pesquisador em neurociência.
Essa dedicação excessiva à atividade física reflete uma dependência comportamental, muito semelhante à do jogo e do sexo, por exemplo. Essa dependência também está relacionada a uma questão química, por meio de substâncias associadas ao prazer, como a endorfina e a dopamina. "Há uma predisposição genética para esse tipo de obsessão", explica o neurologista Roberto Hirsch, doutor pela Faculdade de Medicina da USP e membro da Academia Brasileira de Neurologia.
Viciado, eu?
Como a prática de exercícios produz benefícios para a saúde física e mental, esse comportamento de dependência da corrida que ultrapassa o recomendável é socialmente mais aceito. Mas como identificar esse limite? "Quando surge um prejuízo social, físico ou psicológico. A pessoa abre mão de outras atividades por não conseguir ver prazer em nada além da corrida", afirma a psiquiatra Mara Maranhão, do Núcleo de Medicina Psicossomática e Psiquiatria do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Sobre esse comportamento monotemático, Roberto Hirsch completa: "A obsessão é um estreitamento de caminhos. A pessoa vê apenas um deles no leque de opções". Então a corrida passa ser a única forma de lazer e de socialização e o único assunto de interesse de quem perde esse limite.Mas qual é a diferença entre amar o esporte e virar refém dele? Há uma parcela de atletas que apenas gosta muito de correr e se dedica a isso. A flexibilidade e a forma de lidar com os outros setores da vida é que indicam quando a situação passou do limite considerado "amor ao esporte". Se você está na dúvida, preocupe- se com a opinião de pessoas próximas, perceba o quanto você adapta uma rotina de treino em situações atípicas, como um aniversário ou reunião importante. Quando o assunto é comportamento, fica muito difícil ter uma imagem clara e fiel de como você realmente é. Sob o olhar dos outros, isso é mais fácil.
E aí, descobriu?
Por Daniela Hirsch | Fotos Renato Pizzutto | Ilustrações Tainá Tamashiro


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